USP promove segurança através do diálogo

A nova superintendente de Prevenção e Proteção Universitária quer formular com a comunidade uspiana ações que garantam a paz e a convivência nos campi da Universidade

Em meio à surpresa do convite para ser titular da Superintendência de Prevenção e Proteção Universitária, Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e membro do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), também da USP, assumiu o cargo no dia 15 de abril com a missão de resolver questões ainda não devidamente tratadas com a comunidade uspiana e de constituir um grupo de trabalho que traga o maior número de subsídios para se pensar a segurança dos campi da Universidade.

Ana Lúcia faz questão de ressaltar que, antes de mais nada, quer compreender como se encontra a superintendência, por isso privilegiou, nos primeiros 14 dias de trabalho, conhecer bem a situação, já que ocupar essa função era algo totalmente fora da sua imaginação. A professora acredita que a escolha do reitor Marco Antonio Zago se deu por conhecer de perto o seu trabalho de antropóloga na área de direitos humanos e questões ligadas ao sistema de Justiça.

Para ela, a escolha sinaliza uma mudança importante: trata-se de uma oportunidade de refletir sobre como a superintendência deve ser conduzida, uma vez que na gestão anterior havia uma tensão relacionada com o fato de o superintendente ser um coronel reformado e não um civil – um docente ou uma docente – e também pela existência do convênio com a Polícia Militar. “Ambas as questões não foram devidamente dialogadas com a comunidade como se esperava que fossem”, afirma a superintendente.

Ana Lúcia ressalta que nos primeiros dias de trabalho conseguiu conversar com vários agentes de segurança, dando prioridade em ouvi-los em relação às suas expectativas, demandas, insatisfações e expectativas. “Ao invés de ter uma única opinião de como está a superintendência, prefiro ouvir primeiro, para perceber quais são os planos das pessoas, a fim de fazer um papel de articulação de convergência das eventuais expectativas comuns.”

Grupos de trabalho – A superintendente explica que criará dois grupos de trabalho. Um deles tratará da questão mais ampla da segurança nos campi. “A princípio, a ideia é que seja um grupo de trabalho interdisciplinar, que também conte com discentes e funcionários, e cubra as várias facetas ligadas às questões de segurança, tais como convivência e administração de conflitos, por exemplo.”

Um ponto-chave já observado pela antropóloga é a questão da comunicação. “Os canais de comunicação ficaram truncados. As pessoas sentem falta de trocar ideias, de enviar e receber demandas de maneira mais clara. Quando esse canal de comunicação não existe, o trabalho cotidiano fica bastante complicado”, observa.

Esse grupo de trabalho será desvinculado das questões operacionais e cotidianas, e terá liberdade para pensar como funcionam as instâncias semelhantes em outras universidades do Brasil e do mundo. “Esse é um grupo que vai pensar e propor seminários, plenárias e workshops, que absorvam a participação de todos da comunidade uspiana”, afirma.

A realização desses eventos será uma das tarefas do outro grupo de trabalho planejado pela superintendente, que tratará de questões mais internas, como compra de uniformes e a relação de trabalho entre os agentes que são funcionários contratados e os terceirizados e entre os que exercem funções administrativas e funções operacionais. “O objetivo é refletir sobre como tornar tudo isso harmonioso, sem a ilusão de que as coisas serão perfeitas”, destaca Ana Lúcia.

Colegiado – O primeiro projeto operacional é criar um colegiado com poder de decisão de fato. Para a antropóloga, a figura do superintendente concentrando todo o poder de decisão é algo para o que ela não se sente competente e não é a forma de administração como gosta de trabalhar. “Para mim, uma pessoa nunca pensa e decide bem sozinha. Ela acaba se isolando e fica obviamente à mercê de conhecimentos que não detém e não articula bem, pois a articulação se faz no diálogo.”

Ana Lúcia deixa claro que seu entendimento para organizar a Superintendência de Prevenção e Proteção Universitária vem de sua experiência como chefe do Departamento de Antropologia da FFLCH. Para ela, a figura do chefe, além de cumprir questões administrativas e burocráticas, é de articulação, e por isso há um conselho de departamento que se reúne pelo menos uma vez por mês e decide, vota, escolhe, define.

Para que haja uma democratização nas várias instâncias de poder da USP, a antropóloga acredita ser fundamental que a superintendência funcione em regime de colegiado, e que vários setores tenham representação nesse colegiado e possam conduzir questões que venham de uma ampla base – no caso, os cem agentes de segurança, concursados da USP, um número expressivo e bem maior que qualquer departamento em termos de funcionários.

O trabalho dos agentes de segurança tem uma peculiaridade, que é o papel operacional que os coloca 24 horas por dia em contato com a comunidade, muito diferente de outros trabalhos administrativos, destaca a professora. Pensar um colegiado que dê suporte à figura do superintendente, permitindo que ele articule bem o funcionamento de todo o conjunto, é uma das metas de Ana Lúcia. “Acredito e espero que isso aconteça nesta segunda quinzena da gestão.”

A superintendente finaliza apontando que assumiu esse desafio principalmente como antropóloga, porque, antes de tudo, este é um grande trabalho de campo para uma antropóloga que trabalha com concepções de justiça, de direitos humanos e de segurança pública. “Entendi que assumir esta incumbência seria uma grande oportunidade para fazer uma espécie de etnografia participativa, com observação dessa instância da USP. Estou muito curiosa como antropóloga.”

Referência: Jornal da USP - online / ANO XXIX Nº 1003 - Por: Izabel Leão

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