Drª Walusa fez brotar humanização em meio aos fios e incubadoras da UTI Neonatal do HC

Os pacientes, em sua maioria, têm menos de um quilo. Bebês que chegam ao mundo com dura batalha anunciada. Pais que, sem sobreaviso, trocam a canção de ninar pelos alarmes atordoantes dos aparelhos que mantêm seus filhos vivos.

Ali, entre tanta fragilidade, a médica plantou força. Substituiu o distanciamento, justificado pelo tratamento exemplar, por proximidade justificada no simples:

– Aquele bebê sempre vai ser o filho daquela mãe. Quando os pais vivenciam, aquela vida faz sentido.

Assim como Walusa precisou vivenciar a sua dor.

Os caminhos médicos foram norteados pelas dores familiares. A médica colheu em casa as sementes da humanização.

– Parece que cada mãe que eu consolo, estou consolando um pouco a minha mãe.

Walusa Assad Gonçalves Ferri soube que queria ser médica quando o irmão do meio nasceu. Ela era a mais velha entre três irmãos.

Com uma síndrome genética ele não consegue falar mais que uma palavra: o nome da irmã.  Era ela quem o defendia do preconceito na escola e quem ajudava o pai na fisioterapia improvisada. Amarravam uma corda no pé de goiaba e colocavam o menino para andar.

Os pais ouviram todo tipo de absurdo quando ele nasceu, 38 anos atrás.

“Sua vida acabou com esse filho.”

“Vocês nunca mais vão ser felizes com esse menino.”

Walusa observava tudo, com o coração atento e apertado.

Entendeu ali a Medicina que queria fazer.

– Sempre quis ser médica para aliviar aquela dor que os meus pais sentiam de ter um filho com limitação. Meu irmão norteou a minha vida.

Estudou em escola pública, sempre como a primeira da sala. Diz que, por defender seu irmão, era isolada dos outros alunos. E compensava a solidão com o estudo.

– O meu irmão sempre foi motivo para a gente acreditar que podia o impossível.

Passou em Medicina em 94, na Universidade Marília. Em 2000, já casada e morando em Ribeirão Preto, foi aprovada na residência da USP e se especializou em neonatologia.

Estava feliz. Mas diz que a médica de então tinha certa impaciência dentro de si.

– Apesar do meu senso de justiça, eu era muito intolerante com os defeitos dos outros.

Não demorou a mudar. Já ciente da transformação que só a dor faz.

A UTI neonatal chegou para Walusa como experiência de vida, em meio a morte.

Em 2006 o irmão caçula, “ator principal da família”, nas palavras dela, foi assassinado.

Ele dirigia o carro por uma rodovia com a noiva quando percebeu sacos de lixo no meio da pista. Decidiu voltar e retirar os empecilhos, que poderiam causar um acidente.

Não havia como supor que se tratava de emboscada. Os bandidos o alvejaram, assustados com o retorno do motorista, surpresos com uma boa intenção.

– Enterrar um irmão é uma dor inexplicável. Tudo o que a gente achava difícil por ter uma pessoa com deficiência na família, não era nada. Foi o momento mais marcante da minha vida.

Marcante pela dor e pelo que a médica fez surgir dela.

– Geralmente a dor é destrutiva. Eu consegui transformar a dor em uma coisa produtiva.

Em meio a morte do irmão, Walusa teve a oportunidade de trabalhar na UTI neonatal do Hospital das Clínicas. O setor atende todos os níveis de complexidade em recém-nascidos.

 – Chego e me deparo com uma criança morrendo no berço sozinha, a mãe longe pela ideia de que ela não devia desenvolver afetividade por um bebê que não iria viver.

Walusa, com a dor da morte tão gritante, entendeu que estava ali para mudar. E dar àquelas mães, que sofriam como a sua, algo de bom.

– Não interessa o quanto dura a vida. Aquela história tem que ter começo, meio e fim. Ali, a doença tinha um tamanho imensurável e o indivíduo um tamanho pequeno. Nós invertemos.

A médica implantou a humanização na UTI, que se tornou o oposto do convencional. Por ali, mães e pais são bem-vindos a qualquer hora do dia. Os pais, inclusive, foram inseridos em um contexto que, até então, ficava limitado à figura materna.

O apoio psicológico é parte do pacote, tanto para as famílias quanto para os profissionais que atuam. Grupos espirituais também encontram as portas da UTI abertas, para levar afeto.

O objetivo da equipe, Walusa ressalta, é claro:

– Salvar às vezes, consolar sempre.

A médica diz que, com a nova conduta, a UTI passou a funcionar mais leve. E o resultado chegou até mesmo ao tribunal. Walusa destaca que o setor era alvo constante de processos judiciais por parte de famílias. Hoje, tem número mínimo de ações.

– Deu alívio para equipe, que tem a sensação de dever cumprido. E para os pais, que passaram a ver sentido naquela vida. O amor pode, sim, conviver com a Medicina de ponta.

Hoje, aos 40 anos, não há mais Walusa intolerante. A médica vê o outro – com defeito e tudo – em primeiro lugar.

– O perfeccionismo morreu com o meu irmão. Ser eclética é o que faz a gente ser tolerante. A dor do outro dói muito na gente.

A médica foi nomeada docente da Faculdade de Medicina da USP, com a missão de levar a humanização para as demais UTIs do Hospital das Clínicas e de plantar a semente nos alunos.

Na sala de aula, Walusa se sente multiplicar.

– Cada aluno leva um pouco da gente. E é uma grande responsabilidade formar os profissionais que vão dar continuidade à saúde do país.

A oração é apoio da médica que, vez em quando, também cansa e deixa a sua dor voltar à tona.

– Eu medito. E faço oração, e choro, e penso, e respiro e tento sentir o mundo em volta. Daí passa.

Devota de Nossa Senhora, coleciona imagens em casa e no hospital. A médica que rompeu os padrões da UTI sem sentimentos nem cogita uma Medicina sem fé.

–  Eu entrego. Tem coisas que não têm explicação. É um dia após o outro.

Em casa, Walusa tem papel tão grande quanto o de docente e médica.

Mãe de duas meninas, tomou como missão educar suas pequenas para somarem ao mundo.

– Um grande desafio para mim é fazer elas entenderem que é dá gente só o que a gente faz.

Para o futuro, a Walusa  – médica, mãe, docente, mulher – é ilimitada.

– Eu quero tudo! Sem quadrado.

Entre a dor e a ciência do cuidar, aprendeu que o controle da vida está muito além das mãos. Mas, para fazer a diferença, não é preciso controlar. Só sentir.

E Walusa sente.

Referência: historiadodia.com.br

Compartilhe

Editor: Benedito Carlos Maciel
Corpo Editorial: Margaret de Castro, Benedito Carlos Maciel, Ricardo de Carvalho Cavalli
Coordenação Executiva: Célia Bíscaro
Assessoria Técnica: Seção Técnica de Informática da FMRP-USP
Assessoria: Assessoria de Imprensa do HCFMRP-USP, Assessoria de Imprensa HEAB, Assessoria de Imprensa do Hemocentro RP e Documentação Científica da FMRP-USP
Jornal Eletrônico do Complexo Acadêmico de Saúde - FMRP-USP | HCFMRP | FAEPA
2012 - Todos os Direitos Reservados - Fale Conosco