Cegueira não impediu Antônio José da Cruz Santos, o Niltão, de ser médico

A última imagem antes do acidente é de despedida. Falou tchau para a esposa, entrou no carro e pegou a estrada de Ribeirão Preto para Porto Ferreira.

Depois, é tudo apagão. Reproduz o que lhe foi dito quando conta que o caminhão fechou seu caminho e o carro foi parar embaixo dele.

Acordou do coma 12 dias depois, 12 horas e meia antes de o terceiro filho nascer.

– Eu me recuperei para receber a notícia do nascimento do Matheus.

As duas notícias vieram ao mesmo tempo: seu terceiro filho acabara de nascer e ele não poderia vê-lo. Antônio José da Cruz Santos, o Niltão, soube ali que o acidente lhe tirara a visão de um jeito irreversível.

Era dia 25 de julho de 1979, uma quarta-feira, quando o carro foi parar embaixo do caminhão e ele sofreu fraturas na coluna, nos ossos da cabeça e a ligação neural da visão foi cortada.

– Era Dia do Motorista e Dia de São Cristóvão, o protetor dos motoristas. Você pode perguntar: ‘E ele não te protegeu?’. Claro que sim! Eu estou vivo!

Continuou vivo, continuou médico, continuou em frente com a vida. É ortopedista no Hospital das Clínicas, na Prefeitura de Ribeirão Preto e em consultório próprio.

No mês passado, comemorou 70 anos com festa. Não faltam motivos. 

De antemão, é preciso esclarecer: pouca gente conhece Antônio por Antônio. Aos 11 anos, o nome de registro foi praticamente substituído pelo apelido.

– Foi quase um novo batismo!

Copa do Mundo de 58. O Brasil estreou a taça e Antônio, pela semelhança com Nilton Santos, estreou o novo nome. A contragosto, é preciso dizer. E foi bem por isso que pegou.

– Eu corria atrás de quem chamava. Depois fui saber que era melhor não ter ligado!

Até mesmo para a esposa e os filhos Antônio é Nilton. Na faculdade, ganhou aumentativo e passou a Niltão.

No convite de casamento, no crachá do hospital, Antônio vem sempre acompanhado do “segundo nome de batismo”.

Fica Nilton, então. E a história prossegue.

Nilton, filho de pai marceneiro, mãe dona de casa e o mais velho de três irmãos, foi o único da família a escolher a Medicina como profissão.

Diz que decidiu ser Ortopedista pelo apreço aos esportes e “pela semelhança” com a profissão do pai. E cai na risada.

– Muitas das coisas da marcenaria se usa na Ortopedia: serra, parafuso, chave de fenda.

O humor é parte de Niltão. Escolheu seguir sorrindo.

Se formou na USP (Universidade de São Paulo), única faculdade de Medicina em Ribeirão Preto na época. Passou na residência e, ao final da especialização, com 32 anos, já atuava na profissão, até mesmo fazendo cirurgias.

O acidente foi a caminho de um plantão.

Era para ter ido na terça-feira, mas um amigo pediu para trocar e Nilton ficou com a quarta.

– O meu pai me ensinou um provérbio árabe: Maktub. Quer dizer ‘Estava escrito’. Era para ser assim.

A esposa contou que, durante os 12 dias de coma, ouviu dos médicos que Nilton não iria mais acordar. Grávida de quase nove meses, ela só deixou o marido quando o filho, Matheus, resolveu nascer, trazendo o pai de novo à vida.

– Tempos depois soubemos que o significado do nome Matheus é ‘enviado de Deus’, como foi demonstrado. O nascimento do meu filho serviu para me dar forças para tocar a vida para frente.

Acordar do coma com a notícia do nascimento e da perda da visão fez Nilton encontrar mais motivos para seguir do que para se revoltar.

Três dias depois de voltar à vida, teve alta do hospital e foi para casa.

– Eu pensava que não podia esmorecer. A esposa não tinha colocado os filhos no mundo sozinha e eu precisava estar com ela. Para não entrar em depressão, eu procurei fazer alguma coisa útil.

Um mês e meio depois de deixar o hospital como paciente, retornou como médico. Decidiu que voltaria a atuar como ortopedista, fosse como fosse.

No começo, um colega médico acompanhava as consultas. Alguns meses depois, já não era preciso.

– O deficiente visual hipertrofia a audição e o tato. Eu fico atento a tudo que o paciente fala, inclusive às tonalidades da sua voz. E a percepção vai se tornando algo do dia-a-dia.

Três anos depois do acidente, viajou sozinho para São Paulo, em um congresso do Hospital das Clínicas. Usou metrô, confirmou que a independência estava mantida.

– A visão ocupa e bloqueia de 70 a 75% dos outros sentidos. Se você está vendo algo e estoura uma bomba, você pode não perceber.

Atua na área de reabilitação e diz que nunca teve qualquer problema com pacientes ou outros profissionais pela sua deficiência.

Bem o contrário. Nos corredores do Hospital das Clínicas, não há quem passe sem dar um “oi” acalorado para o Niltão.

Nilton fala “olhando no olho”, gesticulando com as mãos e a gente chega a ficar confuso: será que a cegueira foi passageira?

Não. Ele continua sem enxergar. Tem apenas a percepção da claridade. Mas quis manter o contato no qual sempre acreditou.

A visão de Nilton foi afetada com um corte do nervo óptico, mas os olhos continuaram normais, com mobilidade e abertos.

– Eu sempre gostei de falar olhando no olho. A conversa sai melhor. Então, é só mirar para uma palma acima de onde o som sai.

Conta que no consultório muitos pacientes não percebem sua deficiência. É ele quem escreve as receitas, com o apoio de um papel cartão para marcar as linhas.  Mas faz questão de deixar claro a cegueira antes de a consultar acabar.

Como pôde enxergar um dia, contextualiza na mente o mundo envolta. Mas diz que não fica voltando ao passado ou alimentando saudade do que não pode ver mais.

– Se eu senti saudade, foi no começo. Depois, isso foi ultrapassado, para não ficar remoendo o que não poderia ser mais possível.

Nilton trata a vida assim: com praticidade envolta em otimismo.

– Se eu sou feliz? Eu perguntaria o que é ser feliz! Eu acredito que a vida é feita de pontos felizes.

Outro dia foi jogar boliche com o filho Matheus. Assustou um pouco quando o moço veio com a ideia, mas logo entrou no clima e não demorou a fazer um strike.

Conta também do dia em que foi ao parque com os três filhos e ganhou uma bola no tiro ao alvo.

– Eu participo igual. Isso me relaciona com os meus filhos sem o cordão da deficiência.

Diz que o Matheus é o filho que mais parece consigo.

Não precisou vê-lo para saber.

O dia desta entrevista era também de encontro com os antigos amigos do futebol. Nilton já havia confirmado presença no bar, onde iria aliviar o calor com uma cerveja gelada.

– Muita gente diz: ‘Eu não sei se eu teria a força que o senhor tem’. Eu respondo o seguinte: a gente não sabe a força que tem até quando se precisa dela.

Nilton aprendeu a enxergar além dos que os olhos permitem ver. E na escuridão, encontrou a clareza para seguir em frente.

E ser mais.

Referência: História do Dia -  http://historiadodia.com.br/cegueira-nao-impediu-nilton-de-continuar-medico/

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