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A rotina noturna do Hospital que nunca dorme

Cerca de 30% dos funcionários da Unidade de Emergência trabalham à noite.
São cerca de 350 profissionais que sustentam, no período noturno, a engrenagem desse grande Hospital.

A Unidade de Emergência trabalha 24 horas por dia, 365 dias por ano. Em 2018, foram quase 39 mil atendimentos e 4.500 cirurgias. Para atender este volume de pacientes são necessários quase 1.200 funcionários, dos quais cerca de 350 trabalham à noite, entre as 19h e 7h.
Para sustentar bem toda essa engrenagem de um grande hospital, que tem o funcionamento à noite igual ao dia com atendimento de urgência e emergência, são necessários os mesmos profissionais do diurno: médicos, enfermeiros, equipes de técnicos, porteiros, limpeza, manutenção, recepção, nutrição e outros.

Entre os que trabalham, há aqueles que só querem trabalhar à noite. É o caso da auxiliar de enfermagem Isabel Cristina Machado, que está no Hospital desde 1989, e que completa, em agosto, 30 anos na Unidade de Emergência. “É um turno a que me adaptei melhor. Não quero mais trabalhar durante o dia”, afirma.Ela começou por necessidade há cerca de 20 anos. “Precisei trabalhar à noite para cuidar, durante o dia, de meu pai que teve AVC e de minha filha. Meu marido trabalhava em dias pares e eu em ímpares. Acostumei e agora só mudo de turno se o médico falar que tenho que ir para o dia por problema de saúde. Do contrário, é a noite que fico e feliz”, afirma.

Outro que não pensa em trocar a noite pelo dia é o porteiro Juliano Fabris Trindade. Ele está há 25 anos no HC, sendo 24 deles no período da noite. “Não me vejo trabalhando durante o dia. Já me acostumei ao trabalho à noite. Em eventual mudança, teria muita dificuldade em me adaptar, acho melhor ficar assim mesmo”, relata.
O técnico em radiologia, Everton Aparecido de Castro, tem 13 anos de HC, 11 deles à noite, entre as 18h e 6h. “No começo não foi fácil, mas precisei ir para o turno da noite para poder estudar, mas hoje já estou bem acostumado. Sinto-me bem”, afirma. Ele faz Odontologia em período integral.
Carlos Roberto Chiarantin da Silva tem quatro anos de HC e o mesmo tempo de Controle de Leitos. Trabalhar à noite foi uma opção para poder trabalhar com filmagens e edição durante o dia. “Mas dá tempo descansar”, afirma. Ele explica que para compensar o trabalho noturno criou uma rotina. “Chego, tomo café com minha esposa, trato dos seis cachorros e vou assistir televisão. Já relaxado, durmo sem problema”.
No Controle de Leitos, Marcia Helena Pereira também não pensa em mudar o turno de trabalho. “Passei a trabalhar à noite para cuidar de meu pai. Hoje nem penso em mudar. É o melhor horário para trabalhar e me sinto bem assim”, afirma.
Na linha de frente da noite
Marilena, Carolina, Michele, Ana e Renata são responsáveis pela enfermagem em plantões noturnos. Todas elas sempre trabalharam no período noturno e não escondem a preferência pelo turno.
“Geralmente, a gente começa por necessidade, depois pega gosto”, explica a enfermeira Marilena Antoniete que trabalha há 29 anos nos plantões noturnos da UE. “Comecei por necessidade, tinha filhos pequenos e dava aula em duas escolas. Agora é uma opção, nem se me quiserem de dia, eu não vou”.
A preferência das enfermeiras tem um motivo especial. “Nossa equipe é muito boa, o trabalho flui. E não é só a equipe de enfermagem que possui essa sintonia, todos os funcionários de todas as funções têm uma visão geral do funcionamento e trabalham como uma orquestra”, explicam quase em uníssono.

Para a enfermeira Carolina Brondi, que trabalha há 19 anos no noturno, um dos motivos de maior união da equipe que explica essa união, além da competência e do engajamento da equipe, é a necessidade de resolver tudo com agilidade e precisão. “O trabalho é muito dinâmico, a gente tem que decidir rápido e sem o respaldo imediato da administração, sem alguns serviços de apoio, que só funcionam durante o dia”.

“A gente sempre dá um jeito para tudo”, explica Ana Paula Vieira, enfermeira há dois anos na Sala de Estabilização. “Apesar de todas as dificuldades, mesmo quando a sala está lotada de vaga zero, a gente sempre procura prestar assistência da melhor forma possível”, garante.
“Cada plantão noturno gera mais maturidade e faz aflorar nosso empreendedorismo, liderança, nosso olhar crítico e reflexivo”, explica a enfermeira Michele Fuini, que trabalha na Sala de Trauma. Há dois anos no período noturno, Michele diz que “é muito agradecida a toda equipe do noturno que está sempre pronta para ajudar e ensinar”.
O plantão noturno na Unidade de Emergência é sempre muito intenso. E, às vezes, muito mais. Ana Paula comenta sobre um caso recente de um paciente que arrancou os olhos, “foi o caso mais impressionante que vi em toda minha vida profissional, lidar com isso foi muito forte”, conta.
Carolina lembra do caso das rebeliões dos presídios em 2008, “os presos iam chegando aos montes, foi uma correria para cuidar de todos adequadamente”.

Alívio e alegria também frequentam os plantões noturnos. Carolina conta de um caso acontecido na semana passada de uma senhora que teve um AVC grave, mas foi trombolizada a tempo. “A reação de felicidade da filha ao ver a mãe conversando, se movimentando, valeu o plantão daquela noite”, completa a enfermeira.

Referência: Assessoria de Comunicação HCFMRP-USP