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Após seis meses, separação de siamesas tem sido exemplo para outros procedimentos

A separação das irmãs ganhou destaque em todo planeta e foi apresentada no primeiro congresso de siameses da história.

No último dia 27/04, completaram-se seis meses desde a separação definitiva das irmãs Maria Ysadora e Maria Ysabelle – nascidas siamesas ligadas pela cabeça. Segundo os profissionais envolvidos em todo processo de separação, mesmo que em curto espaço de tempo, o sucesso da cirurgia é conhecido em todo planeta e tem sido exemplo para outros procedimentos.

Em entrevista exclusiva ao Portal Revide, o neurocirurgião Ricardo Oliveira falou sobre os bastidores. Ele teve a oportunidade de viajar para a Índia em fevereiro, onde apresentou o caso das crianças cearenses, além do que, tem sido consultado para procedimentos similares.

Portal Revide: Como foi para a equipe médica desde início do tratamento das crianças?

Ricardo Oliveira: Nessa cirurgia nós tivemos todo um processo diferenciado. Desde o início até a primeira, que foi em fevereiro de 2018, houve reuniões com várias pessoas no sentido de planejamento e de algumas decisões. Nós precisávamos vencer alguns obstáculos. Foi um processo muito lento, mas pouco a pouco as coisas foram acontecendo de uma maneira positiva.

Portal Revide: Quando vocês passaram a acreditar que tudo daria certo?

Ricardo Oliveira: Desde o começo, nós esperávamos o sucesso, mas foi depois da primeira cirurgia, que foi o primeiro obstáculo vencido, que pudemos entender que seria possível. O segundo procedimento, em abril, e a terceira etapa de separação já traziam maior confiança. Ao finalizarmos, nós tínhamos realizado 80% do que havíamos planejado no início.

Oliveira contou detalhes dos bastidores da separação

Oliveira contou detalhes dos bastidores da separação

Portal Revide: Qual foi a etapa mais complicada da separação?

Ricardo Oliveira: A terceira etapa, tecnicamente, foi muito difícil, pois identificamos uma situação que era a união de uma parte do cérebro entre as duas. Até aquele momento, isso ainda era tido como uma dúvida. Depois da terceira, nós já estávamos muito próximos. Aí vieram as expansões de pele, o que trouxe um desgaste, pois elas precisaram ficar muito tempo no hospital. Hoje nós comemoramos um grande feito inédito, mas muitos obstáculos tiveram que ser superados.

Portal Revide: O quanto isso repercutiu para você?

Ricardo Oliveira: Houve uma repercussão para várias pessoas da equipe. Nós já possuíamos um reconhecimento na carreira, mas apenas perante os colegas, sendo diferente o que aconteceu dessa vez. Várias vezes as pessoas vieram para consulta e me reconheceram. Mas é uma coisa que sempre fiz com tranquilidade, pois fui preparado para lidar com situações complexas. Estar em campo, durante a cirurgia e saber os passos a serem tomados e as decisões foi fruto de muito preparo técnico e mental para obter os melhores resultados, minimizando os riscos cirúrgicos para as meninas.

Portal Revide: Houve muita pressão?

Ricardo Oliveira: Sim e foi algo importante. A gente já tem muita pressão ao longo da nossa vida. Dentro da Medicina existem áreas com maior risco, mas neste caso foi diferente. O nosso resultado é muito fora da curva. Pois quando nós olhamos todos os casos operados desde 1952, percebemos que poucos deram certo. Neste realizado por nós, além de elas sobreviverem, elas ficaram com o sistema neurológico perfeito. Sem dúvida está entre um dos casos com maior sucesso entre a separação de siameses da história do planeta.

Portal Revide: Ao longo dos procedimentos, a imprensa esteve presente. Como foi essa repercussão para vocês?

Ricardo Oliveira: Eu acho que a imprensa ajudou muito. Ela ajudou a unir a universidade com a sociedade, então hoje, várias pessoas que eu encontro, até mesmo que eu não conheço tiveram contato com isso através desse trabalho de divulgação dos veículos. A informação passada pela imprensa para a sociedade trouxe essa união e energia boa. A sociedade se envolveu com o processo todo. A mídia de Ribeirão Preto principalmente. Vocês sempre estiveram presentes. Se pensarmos dessa forma, vocês fazem parte da equipe. Vocês participaram e a sociedade compreendeu que temos um hospital público com pessoas e capacidade para fazermos algo de nível internacional. Isso não ocorre tão facilmente em outros locais.

Portal Revide: Como foi apresentar o caso para o mundo?

Ricardo Oliveira: Em fevereiro eu tive a oportunidade de ir até a Índia no primeiro congresso da história sobre casos de siameses. E lá as pessoas apresentaram histórias que tinham sido operadas em várias regiões do mundo. Pudemos conversar e identificar que o nosso caso é muito diferente da grande maioria. O nosso resultado final foi muito satisfatório. Mérito de todo trabalho de várias pessoas envolvidas. De uma forma geral eu poderia dizer que nós aprendemos muito com essa história, com todo processo e a mensagem que fica é que o serviço público é capaz, desde que com organização e planejamento. Isso mostra a capacidade das pessoas envolvidas em todo processo de separação das gêmeas. O mais importante agora é que elas voltaram pra casa.

Portal Revide: Mesmo após seis meses, elas ainda usam proteções, quais os motivos?

Ricardo Oliveira: A reabilitação delas, depois da cirurgia, tem sido rápida. Em menos de três meses, elas já estavam fazendo atividades que nós não esperávamos em um espaço tão curto de tempo, como fortalecimento de lombar e até ficar em pé com ajuda. O desenvolvimento neurológico delas foi espetacular. Elas estão evoluindo bem. Essa parte de cicatrização é muito importante na separação de gêmeos, pois é o preenchimento de pele. Nós sabíamos desde o início qual poderia ter maior ou menor sofrimento em relação ao coro cabeludo e isso pode levar algum tempo. Elas passaram por alguns curativos e procedimentos menores para ajustes depois da cirurgia, mas é importante ressaltar que o curativo não significa machucado, mas pode ser uma proteção contra o sol e os ambientes.

Portal Revide: As meninas retornam para Ribeirão Preto?

Ricardo Oliveira: Elas devem voltar para um retorno com a equipe, para vermos a situação. Acredito que até o meio do ano elas estejam de volta. Mas em Fortaleza elas estão sendo atendidas por uma equipe competente com o neurocirurgião Eduardo Jucá, que foi quem trouxe o caso até nós, além de profissionais para as etapas plásticas e reabilitação.

Os procedimentos foram satisfatórios para toda equipe, disse Dr. Ricardo

Os procedimentos foram satisfatórios para toda equipe, disse Dr. Ricardo

Portal Revide: Desde o término, apareceu algum caso semelhante para vocês?

Ricardo Oliveira: Nós temos alguns outros casos diferentes, mas pela própria repercussão e o que nós vivemos aqui, invariavelmente as pessoas chamam para que nós possamos dar opiniões. Em Brasília, deve ocorrer uma separação de cabeça, mas com menor complexidade, no entanto, o colega que vai fazer o procedimento lá esteve em Ribeirão e trocou experiências conosco. É possível que as pessoas nos procurem por conta da experiência que nós adquirimos. É importante ressaltar que no Hospital das Clínicas existem muitos casos raros e são de diferentes tipos.

Portal Revide: Vocês esperavam o sucesso?

Ricardo Oliveira: Não adianta você querer chegar ao último degrau da escada saltando. A chance de não dar certo seria grande. Então é bom um passo de cada vez. Algumas vezes nós discutimos os riscos e se não daria certo. Mas a cada passo dado, a equipe ficava mais fortalecida e confiante. Ter confiança é o que diferencia muitas vezes a excelência do resultado, pois tecnicamente, você tem profissionais com as mais variadas qualidades e capacitações, mas precisa do treinamento certo. Com isso, a chance do sucesso é muito grande. Quando chegamos à última cirurgia, por mais complexa que seria, nós sabíamos o que iriamos fazer e o resultado final nos surpreendeu, pois elas ficaram muito bem. É o que nós esperávamos, mas diante da literatura, nós ficamos com um pé atrás, pois poderíamos ter problemas. Mas felizmente isso não aconteceu. A equipe trabalhou bem, foi muito interessante vivenciar esse processo. Tudo foi um aprendizado e quando você vê na prática é diferente. As pessoas se engajaram naquele projeto. A energia foi muito boa. Isso aumenta a chance de dar certo.

Referência: Revista Revide – Por: Pedro Gomes – Fotos: Luan Porto e Divulgação