\ Univ… > Jorn… == > Dest… > Coro…

Coronavírus usa armadilhas do sistema imunológico para espalhar infecção e destruir células

Aumento da quantidade de redes de DNA dos neutrófilos – as NETs – no plasma e em tecido pulmonar de pessoas infectadas pelo sars-cov-2 é indicador precoce de casos graves da doença, dizem pesquisadores.

Ao ataque de microrganismos, células do sistema imune conhecidas por neutrófilos (tipos de leucócitos ou glóbulos brancos) lançam redes de material genético para capturar e matar os invasores. Essas redes formam as armadilhas extracelulares de neutrófilos, que os cientistas chamam de NETs (do inglês Neutrophil Extracellular Traps).

O que a ciência já sabe e, aparentemente, o sars-cov-2 também, é que as NETs não apenas destroem os vírus e bactérias invasoras, mas danificam os tecidos do órgão invadido, começando inflamações que podem resultar em diferentes doenças como a sepse (infecção generalizada). Por isso, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP decidiram investigar a relação das NETs com o vírus da covid-19.

Foto: Flávio Protásio Veras

O estudo, desenvolvido pela equipe do Centro de Pesquisas em Doenças Inflamatórias (Crid), na FMRP, avaliou amostras de sangue, de material aspirado da traqueia e de tecido pulmonar, recolhidos de 32 indivíduos hospitalizados no Hospital das Clínicas da FMRP com diagnóstico de covid-19. Os resultados apontaram altas concentrações de NETs em todos os tecidos infectados pelo vírus. Mostraram ainda que o sars-cov-2 consegue manipular neutrófilos saudáveis para liberar suas redes de DNA.

Farmacologista Flávio Protásio Veras – Foto: Arquivo pessoal

Um dos responsáveis pela pesquisa, o farmacologista Flávio Protásio Veras, conta que o aumento de neutrófilos é um indicador precoce dessa forma grave da covid-19, já que as NETs, liberadas por esses neutrófilos, “participam das lesões pulmonares observadas em pacientes internados, em estado grave, por essa doença”. O pesquisador acredita que este fato ajude a explicar por que algumas pessoas desenvolvem uma resposta inflamatória excessiva, danificando os pulmões e causando a síndrome do desconforto respiratório agudo, que pode matar.

Os experimentos realizados em laboratório, infectando com o sars-cov-2 culturas de células saudáveis, confirmam a ação do vírus sobre os neutrófilos. O professor Fernando de Queiroz Cunha, líder da equipe do Crid, conta que assim pôde observar que o causador da covid-19 induz os neutrófilos a formar as NETs que, por sua vez, foram responsáveis pela morte de células epiteliais pulmonares. Com esta descoberta, o professor acredita que os pesquisadores estão diante de um marcador para casos graves da doença e sugere, como estratégia para amenizar seus danos aos órgãos atacados, o “uso de inibidores da síntese de NETs ou de promotores de fragmentação de NETs”. O tratamento proposto, no entanto, ainda precisa de mais testes para ser recomendado ao uso em doentes pela covid-19.

Foto: Flávio Protásio Veras

Além da ação das NETs, o artigo que o grupo acaba de publicar na revista Journal of Experimental Medicine ainda mostrou como o vírus consegue invadir e dominar os neutrófilos, induzindo-os a produzir as NETs. Cunha explica que o vírus utiliza duas enzimas, a enzima conversora de angiotensina (ACE2, do inglês angiotensin conversor enzyme 2, associada a doenças cardiovasculares) e a serino-protease TMPRSS2 (que fica na superfície celular e interage com a proteína S – Spike, do sars-cov-2). Segundo o pesquisador, essas vias de acesso aos leucócitos e o ciclo repetitivo viral “são cruciais para a liberação das NETs”.

Para os pesquisadores, o conjunto dos resultados obtidos na pesquisa explica o papel das NETs nas lesões pulmonares observadas na covid-19 e descreve os mecanismos moleculares que promovem a liberação das armadilhas pelas células de defesa do organismo, “ampliando o entendimento da fisiopatologia da covid-19 e tornando a NET um potencial alvo terapêutico”.

Mais informações: fdqcunha@fmrp.usp.br ou fprotasio@usp.br

Referência: Jornal da USP – Por: Rita Stella – Fotomontagem: Jornal da USP