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Pacientes de Ribeirão integram estudo mundial contra o câncer

 

A oncologista Liane Rapatoni, sobre a pesquisa para desenvolver o medicamento para imunoterapia (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Três pacientes em tratamento contra um câncer no pulmão, em Ribeirão Preto, integram um estudo mundial com imunoterapia que estimula o próprio sistema de defesa do corpo humano a combater as células doentes.

O medicamento utilizado foi desenvolvido com base em pesquisas dos imunologistas James P. Allison, dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, do Japão, agraciados com o Nobel de Medicina em 2018.

Um desses pacientes está em tratamento no Hospital das Clínicas (HC) e outros dois, na Beneficência Portuguesa. Uma quarta pessoa ainda é submetida a exames para, possivelmente, fazer parte do estudo pelo HC.

A oncologista clínica Liane Rapatoni, do HC, explica que quando o paciente é incluído em um estudo clínico de um novo medicamento há uma garantia de que não haverá prejuízo no combate à doença, ou seja, ele continuará a receber a quimioterapia ou radioterapia, aliada à imunoterapia.

“De modo geral, eu ofereço para uma parte o tratamento experimental. O paciente não pode, em nenhum momento, ser prejudicado porque está participando do estudo e também tem que ser voluntário, não recebe nenhuma remuneração para isso e não é identificado”, diz a médica, que ressalta haver uma regulamentação ética em torno desse procedimento.

A oncologista Fernanda Maris Peria, que também atua no HC, garante que o estudo clínico é seguro, pois a medicação que está sendo avaliada já passou por testes químicos desde a sua descoberta.

“Antigamente, o paciente falava: eu vou ser cobaia. Não é isso, porque quando se chega aos estudos clínicos, que são multicêntricos internacionais, já se sabe que a medicação é efetiva e qual dose usar. O objetivo dele é comprovar se os resultados e as medicações novas são superiores ao que a gente já tem na literatura ou não”, explica.

A equipe responsável não autorizou a realização de entrevista jornalística com o paciente.

A médica Liane Rapatoni, contudo, explica que o estudo é considerado cego para garantir um resultado mais efetivo.

“A gente não sabe se ele [paciente] está recebendo a quimioterapia mais a imunoterapia ou a quimioterapia mais o placebo, que seria o soro puro, o que não daria nenhum efeito colateral. Provavelmente, os médicos nunca irão saber, quem sabe é somente quem manipula”, conta.

Até R$ 30 mil

O alto custo de um tratamento imunoterápico o valor pode chegar a R$ 30 mil ao mês dificulta o acesso de grande parte dos pacientes ao procedimento. Eles, porém, têm a chance de conseguir por meio de parcerias entre hospitais e laboratórios particulares.

“No SUS (Sistema Único de Saúde) é bem complicado, pois a gente não consegue ter acesso a essas medicações. A grande maioria consegue através do estudo clínico. Em algumas situações, como em programas de uso compassivo, o laboratório fornece ao paciente depois de a Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) autorizar especificamente para aquela pessoa”, explica a oncologista Liane.

Bons resultados

Já há cinco medições da classe de imunoterápicos aprovados pela Anvisa para uso no Brasil. A primeira imunoterapia foi ministrada em 2012 no país e os resultados, segundo a médica Liane Rapatoni, já são expressivos.

“No melanoma metastático, antes da imunoterapia, a sobrevida média era em torno de seis meses. Com o tratamento, a gente tem mais ou menos 20% dos pacientes vivos há mais de cinco anos. O grande desafio hoje é como identificar esse paciente que vai responder ao tratamento daquele que não vai responder por conta do custo envolvido”, avalia.

 

Câncer x Morte

As médicas Liane Rapatoni e Fernanda Peria são unânimes em afirmar que o câncer não significa o fim de uma vida ou uma sentença de morte ao paciente. Para essa convicção, as profissionais tomam por base o avanço da medicina na área oncológica.

“Ainda tem muito preconceito formado. Quando o paciente ouve a palavra câncer ele já acha que vai morrer amanhã e não é bem assim. Há vários tratamentos disponíveis e a chance de cura está aumentando. Mas, o que é extremamente importante é o diagnóstico precoce: quanto mais cedo eu faço diagnóstico do câncer, mais chance do paciente ficar curado”, explica Liane.

“Existem ainda alguns desafios, como por exemplo, os tumores de pâncreas. Mas, se a gente olhar ao longo dos últimos 20, 30 anos, vários tumores como os de mama e próstata, vemos que o tempo que a pessoa vive depois de ter uma doença mais que dobrou. Há uma mudança que é cultural, que o câncer não é uma doença cheia de estigmas, mas o que se espera é torná-lo uma doença crônica”, declara Fernanda.

 

A oncologista Fernanda Peria, que atua no HC de Ribeirão Preto (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

João está com doença controlada

O paciente João Carlos Trevisan, de 69 anos, apresenta resultados positivos contra um câncer metastático no rim tratado com imunoterápico desde setembro de 2016 no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

O medicamento Nivolumabe, avaliado em estudo clínico anterior, tem permitido controlar a doença dele, segundo a médica Liane Rapatoni.

“Para um paciente com câncer é uma boa resposta, um bom quadro”, avalia. A sobrevida para esse tipo de câncer seria de menos de um ano.

O paciente conta que descobriu a doença em uma consulta de rotina no Estado do Paraná. “Eu não tinha sintomas nenhum, mas estava emagrecendo e pesando 46 quilos”, diz.

Ele relata que chegou a ser tratado com outro medicamento após a descoberta da doença, mas que não apresentou o efeito desejado. Trevisan afirma que, hoje, consegue levar uma vida dentro da normalidade com o Nivolumabe.

“Eu trabalho, ando, corro, como, durmo e não sinto nada. Me sinto outro pessoa, a mesma coisa de não ter doença. Esse remédio foi bom pra mim, não posso reclamar, me sinto curado. As pessoas não devem perder a esperança”, ressalta.

A médica Liane explica que o Nivolumabe pertence à mesma classe do medicamento utilizado no estudo clínico com pacientes com câncer de pulmão. A profissional ressalta que uso compassivo do medicamento está aprovado em outras partes do mundo, mas ainda não no Brasil.

No caso de Trevisan, o médico solicita para a indústria que produz a medicação. Após autorização da Anvisa, o laboratório importa o remédio sem custo para o paciente e o hospital.

Touca evita queda de cabelo

Uma touca utilizada em uma clínica particular de Ribeirão Preto aumenta as chances de preservação de queda de cabelo durante a quimioterapia. A técnica, chamada de Crioterapia, leva à contração dos vasos sanguíneos e gera uma espécie de capa protetora que preserva os folículos capilares.

“A touca consegue resfriar o couro cabeludo, de maneira muito controlada e já comprovada, fazendo com que o quimioterápico não atinja na pele e com isso não ocorre a queda do cabelo em algumas pessoas”, explica o oncologista Saulo Brito, do InORP Grupo Oncoclínicas.

O médico diz que a técnica é inédita em Ribeirão e região, implantada no segundo semestre do ano passado. A touca pode prevenir a queda capilar em até 70% das mulheres que passam por quimioterapia contra o câncer de mama.

“A queda de cabelo é um estigma para algumas mulheres e pode ser evitada com a touca. Os resultados são satisfatórios”, ressalta.

Touca evita queda de cabelo em pacientes que fazem quimioterapia (Foto: Divulgação)Referência: ACidade ON